A Casa Muda

Esta página é só uma prévia. Tudo aqui ainda vai mudar.

Muda

Mudar, porque a casa transforma quem entra e quem fica. Calar, porque tudo começou com a vontade de fazer o som do silêncio. Plantar, porque muda é o que ainda vai crescer.

O Encontro

Nem estúdio convencional, nem escola. Espaço de encontro e transformação que une música, performance, artes visuais e ritual, sem enquadramento religioso.

Sensibilidade costuma isolar, porque não há lugar para ir. Esta casa existe para ser esse lugar.

A casa não é o Não-Lugar, é o Encontro.

Os fundamentos, mais abaixo, dizem de onde ela pensa; o manifesto, por que existe.

Quem habita a casa

A Zeladora cuida: prepara palco e respeito para toda diva. Cuidar não é abdicar. Leah Amor, fundadora da casa, é a primeira Zeladora e assina os textos do blog como A Zeladora.

A Diva acontece diante de outros, para que vejam que esse estado é possível. No palco, quem emana a energia é ela. Mas não se garante: o espaço é preparado, o ritual é feito, e espera-se.

A Madame é figura do melodrama: quer ser vista. É porta de entrada pelo olho, mas não manda na casa.

Os Arlequins, o Sério e o Debochado, questionam. Qualquer pessoa cai nesse papel, e ele é necessário para que nem a Zeladora, nem a Madame, nem a Diva vão para o espaço.

As doze entidades, e as outras cartas da casa, estão no Tarot.

Fundamentos

De onde a Casa Muda pensa.

Relacionalidade

Pessoa não tem essência fixa anterior às relações: se constitui nas relações que vive (Confúcio). "Uma pessoa é pessoa por meio de outras pessoas" (Ubuntu). "Dançar junto é estar em sintonia com o ser": presença-objeto contra presença-em-sintonia (Mogobe Ramose, filosofia banta).

Por isso o Tarot, mesmo de estética visual ocidental, está na lógica interna mais perto do pensamento relacional não-ocidental que da metafísica de essência platônica. Entidades não são identidades: são estados que se habitam.

Absurdismo

A Casa Muda é construção que sabe que é construção. Criar sentido sabendo que o universo é indiferente: gesto de Camus. O manifesto define o amor como "a decisão de continuar vivo", e isso é Sísifo.

A Diva pode não vir, mesmo com todo o ritual preparado. Não há garantia metafísica.

Amor fati (Nietzsche): amar o próprio destino, inclusive a parte dura, sem reescrevê-la como bênção disfarçada.

Mecânica e síncrona

Duas formas de presença no mundo, anteriores a qualquer ato físico. Valem para todos os pares do Tarot.

Mecânica: roteiro pré-decidido, que independe de quem está na frente. Repete-se com qualquer um. Não é falta de esforço: o esforço vai para fora.

Síncrona: só existe naquele encontro, corpos ajustando o ritmo em tempo real. Não se repete.

Mecânica não é rigidez: pode improvisar muito, mas para um fim decidido antes. Síncrona deixa o encontro mudar o próprio fim.

SíncronaMecânica
ZeladoraMadame
DebochadoSério
InsurgenteCabeça Branca
RancorMalandro
DivaAutomato
Preto VelhoMatriarca

Toda carta invertida vai para o lugar mecânico. Tensão puxa de volta, pelo contato com o oposto, mas também tira da afinação. Afinação é o estado de estar em sincronia: com todos afinados, ninguém se inverte, seja a entidade síncrona ou mecânica. As duas estão entre as energias do Tarot.

Desejo

No par Zeladora × Madame, presença vira também energia sexual: dois jeitos de despertar desejo.

A Madame quer ser vista. Energia para fora, performance que precisa de testemunha. Encontro performático: se esgota no instante. Trabalha com o que vê; o trabalho invisível não existe para ela. No fundo, deseja ser entendida.

A Zeladora quer ser entendida. Energia para dentro, conexão que exige vínculo real. Encontro que transforma: muda a estrutura entre duas pessoas, tem antes e depois. No fundo, quer ser vista: é a vontade que ela não se permite.

Quem sempre despertou desejo aprende a viver pela aparência: a Madame. Quem não despertou precisa de outro caminho: a Zeladora vai pelo cuidado, o Malandro pelo confronto.

Não é teoria universal do desejo humano: é força situada dentro da Casa Muda, ferramenta de leitura.

Não é fatalismo. É energia formada por repetição histórica, que se pode reconhecer sem aceitar como sentença.

Por que o mapa é assim

O Mapa Simbólico não saiu do nada. Cada parte dele conversa com alguém.

Campo de batalha. Cultura é espaço de símbolos, com núcleo e periferia em troca constante (Lotman, semiosfera). Todo campo é disputa (Bourdieu).

Sagrado, Profano e Banal. Sagrado e profano vêm de Durkheim e Eliade. Banal é o que sobra quando o mundo se desencanta (Weber): o que já foi sagrado e hoje ninguém toma por real.

Zona de Morte e Destruição. Há memória viva e há arquivo (Aleida e Jan Assmann): o arquivo guarda o que ninguém mais vive, e dali ainda se volta. O que nem o arquivo guardou foi silenciado (Trouillot, Silenciando o passado): Destruição.

Corpo como centro. Corpo é ponto zero de toda percepção: só se vê o mundo a partir de algum lugar (Husserl, Merleau-Ponty). Por isso o mapa não tem centro fixo.

Nada fica fora. Signo remete a signo sem fim (Peirce) e vale pela diferença com outros, não por si (Saussure). Estrutura não tem centro que a segure de fora (Derrida, "A estrutura, o signo e o jogo"). Por isso o mapa está dentro do mapa: laço estranho, sistema que aponta para si (Hofstadter).

Símbolos que roubam símbolos. Mito é forma que esvazia um sentido e o enche de outro (Barthes).

O Tarot

No centro da casa está o Tarot: sessenta cartas, entre entidades, locais, objetos, energias e eventos, norte de tudo o que se cria aqui, a começar pelo Itaobi, álbum em preparação. E o lugar onde acontece a Vigília da Zeladora.

O símbolo

Olho dentro de uma boca, sobre redemoinho verde e vermelho. Vê e fala ao mesmo tempo. Não é passivo.

O redemoinho é mais escuro e noturno que o das artes das entidades: redemoinho visto de dentro.

As cores

Vermelho: potência, extração, sangue, telhados de Ouro Preto, Oriferrum vibrante.
Verde: raiz, ancestralidade, musgo das montanhas, Oriferrum natural.
Azul: o que não precisa estar na casa para a casa funcionar. Seduz: a Madame pela estética, o Cabeça Branca pelo dinheiro; o Malandro, por nada.
Creme: papel já tocado, tempo que passou.
Verde e laranja: cor pessoal de Leah Amor. Laranja é o Oriferrum na forma mais vibrante.

Vermelho, verde escuro e creme são Minas Gerais em estado bruto: Oriferrum, musgo, argila vermelha, pedra-sabão. Território se expressando por quem o habita com atenção.

Onde encontrar

Instagram: @a.casamuda
YouTube: @a.casamuda