Mapa Simbólico
Esta página é só uma prévia. Tudo aqui ainda vai mudar.
Campo de batalha
Tudo é símbolo, e todo símbolo está em disputa. O mapa é campo de batalha. Entidades, locais, objetos, energias e eventos do Tarot estão jogados nele, no mesmo plano: qualquer um pode ser jogado, qualquer um pode morrer.
Nada fica fora. A Casa Muda está dentro do mapa, a Zeladora também, e o próprio mapa: símbolo que aponta para si mesmo. Por isso o sistema não vira religião: nada está acima do mapa para ser adorado. A Casa que esquece que está dentro dele e se vê como centro deixa de ser encontro e vira altar: é a Casa Muda invertida.
Três setores
Banal, Profano e Sagrado. Todo símbolo está em algum deles.
Nenhuma carta tem lugar fixo: depende do corpo que olha e do coletivo presente. Nada está escrito na pedra. O Oriferrum muda de setor conforme quem toca.
Anéis
Dentro: Área de Recarga, onde símbolos carregam energia.
Meio: Área de Atrito, onde vive a maioria, em disputa.
Borda: Zona de Morte, onde o símbolo é esquecido. Morte simbólica, não só literal. Dali ainda se volta.
Além da borda pontilhada: Destruição. Ponto sem volta.
Lembrar e citar puxam símbolos de volta da Zona de Morte: cada cover de lado B tocado na Casa faz isso. O Museu é a Zona de Morte com endereço. A Mina Antiga só existe enquanto alguém lembra.
Destruição
O que vai para a Destruição deixa de existir, até na memória. Se alguém lembra ou cita, ainda não foi destruído. Por isso nenhuma carta está lá: o mapa só aponta para a borda.
Imagine uma sociedade antiga, de língua própria, exterminada sem deixar nada. Acabou. Se alguém encontra um vestígio, ela volta a existir, mas não como era. Quem resgata interpreta com o que sabe hoje, não com os símbolos perdidos. Como ler língua morta: chega-se perto do sentido, mas ela não volta a ser o que era.
Por isso resgatar ancestralidade é delicado. Raiz rompida não volta: vira outra coisa nas mãos de quem resgata.
Gravidade
Tempo é gravidade: puxa todo símbolo para fora, rumo à Zona de Morte e, no limite, à Destruição.
Corpos empurram símbolos entre setores. Deuses gregos já foram verdade sagrada; hoje são mitologia, banal que ninguém toma por real. Racismo já foi banal, ensinado até como ciência; corpos juntos o empurraram para o profano, e hoje é crime. Mas segue forçando a volta ao banal: a disputa não acaba.
Símbolos de massa grande têm gravidade própria: atraem outros ou os repelem para a Zona de Morte. Para cristãos e muçulmanos, o Deus abraâmico é hoje o que os deuses gregos já foram: sagrado e real.
Símbolos que roubam símbolos
Quando um símbolo grande atrai outro, não o deixa como estava: engole. A forma continua; o sentido passa a servir a quem roubou. Um homem pobre executado pelo império virou símbolo do próprio império, e a cruz foi parar em bandeira de exército. Revolucionário que combatia a religião foi embalsamado e exposto como relíquia de santo. Rosto de guerrilheiro é vendido em camiseta na loja do sistema que ele combatia. Em Campos das Minas, Itaobi, tinta de rito, virou Oriferrum, e fé genuína foi erguida em igrejas pagas com ele.
Símbolo roubado continua visível, mas preso no roteiro de outro: é a inversão acontecendo no mapa. E roubo nem sempre é fim. Há símbolos que sobrevivem escondidos dentro do que capturou, como orixás que atravessaram séculos sob nome de santos.
O Não-Lugar, o Encontro, o Amor
O Não-Lugar pode ser Atrito ou Zona de Morte: depende de como os símbolos reagem uns aos outros. Todo atrito empurra para a morte. No Atrito, o corpo ainda tem força; na Zona de Morte, não.
O Encontro é recarga: ali pessoas encenam entidades, juntas. Recarga pode virar atrito, e aí deixa de ser encontro. O Encontro é comunhão, não competição.
O Amor é o contrário do atrito: leva à Recarga. É a decisão de continuar vivo. Manter o corpo é ato de amor.
Corpo
O corpo é o único símbolo sagrado independente de setor.
Banal, Profano ou Sagrado: sagrado por natureza, não por posição. Sem corpo não há vida, nem símbolo.
Cartas são peças. Corpo é quem joga.
Símbolo serve ao corpo, nunca o corpo ao símbolo. Sacrifício inverte a ordem: troca o corpo pelo símbolo. Quando os corpos somem, os símbolos vão junto para a Destruição.
Centro
O mapa não tem centro. Centro é o corpo: cada corpo é centro do próprio mapa, relativo ao que enxerga. Nenhum mapa se desenha sozinho: corpo se faz nas relações.
Centro coletivo não existe. Às vezes acontece, quando mapas se afinam. Nenhum corpo o ocupa, ninguém o possui, e sem ele não há Diva.
Diva e Automato
A Diva acontece na Recarga. Único lugar da Casa Muda que suspende toda encenação: toda invenção existe para chegar ali. Pode não vir. É eterna até acabar, porque o tempo também a puxa para fora.
Automato é robô. Há quem o incorpore, mas de saída ele é oco: não há ninguém ali para a Diva encontrar. Por isso ela surge de qualquer entidade, menos dele. É corpo vivo em morte simbólica, na Zona de Morte. Não passou à Destruição: ainda pode voltar.
Nenhum dos dois inverte: cada um já é a inversão do outro. Diva não precisa de mediador, nem do mineral nem do Itaobi. Automato é puro Oriferrum extraído, combustível.
Mapa coletivo
Cada corpo tem seu mapa. A Casa Muda não fabrica centro coletivo: prepara o chão para que mapas se aproximem e, às vezes, se afinem. Para cultivar o corpo e garantir a vida: mapa coletivo é amor partilhado.
O mapa provavelmente não é plano: tem ao menos quatro dimensões. Círculo é só a forma mais simples de pensá-lo. De onde vem cada parte: Fundamentos.