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Assinatura de Leah Amor

O Trabalho Invisível

Ficou claro o porquê de eu estar fazendo todo esse trabalho.

Estar sozinho não é legal. Falam de liberdade, individualidade... Entendo. Por ter nascido homem, é algo que me foi dado de bandeja. Mas, até quando isso é liberdade? Ou é uma âncora que nos prende em certos papéis?

Moro sozinho. Acordo sozinho, tomo meu café, sozinho, abro a janela e vejo a cidade inteira, e tudo que acontece nela. Isso importa para o meu trabalho, o artístico e o que paga as contas.

Depois do almoço, desço a escadaria, atravesso a praça, passo pelos botecos e subo para o escritório. Não há ninguém. Somente eu, minhas vozes e um computador esperando que eu responda e-mails e invente alguma coisa.

Termino, desço a rua, passo no mercado, atravesso a praça, subo a escadaria. Chego em casa e termino o dia, sozinho.

Pode parecer uma vida ótima, e em parte é. Mas você percebe que, sozinho, nada faz sentido. E aí começa a querer construir algum.

Meu psicólogo me perguntou por que eu não arrumava uma comunidade, como se eu não tivesse pensado, nem tentado.

Sabe quando você propõe de se encontrar com alguém? Ela diz que está cheia de coisa. Você pergunta qual dia fica melhor. Ela responde: a gente vai olhando. E o a gente vai olhando nunca acontece.

Tudo bem, todos tem responsabilidades e agendas. Mas parece que viramos autômatos que trabalham para colocar comida na boca e continuar trabalhando. Sobra pouco para viver junto.

Voltando para casa, escuto os ecos das minas, as vozes dos botecos, o choro e o riso de quem está se divertindo, se anestesiando ou procurando algum sentido. Tenho a cidade inteira na janela e nem por isso pertenço a ela. Conhecer o mapa não é ter companhia no caminho.

É daí que vem a Casa Muda.

No manifesto, escrevi que o encontro é um refúgio, que a sensibilidade não é defeito, mas bússola, que a proteção pode substituir a competição. Escrevi também que o amor, sem vestes românticas e mercantis, é impulso da vida. Difícil é fazer existir.

Porque alguém precisa abrir a porta, limpar, comprar material, pagar conta, organizar.

O trabalho que sempre esteve ali
Esse trabalho existe na história da minha mãe, em seus casamentos e no que eles exigiram dela, na minha tia, que abriu mão da própria vida para cuidar dos filhos e, depois, de seu pai quando envelheceu. O que há de comum? Um trabalho que mantém as pessoas vivas e as casas de pé, e que quase nunca é chamado de trabalho.

Para elas, foi apresentado como destino. Quem faz some dentro do que fez: a comida aparece, a casa está limpa, o pai é acompanhado, e ninguém perguntou do que alguém abriu mão.

Não quero uma Casa Muda em que o encontro de uns dependa do sacrifício silencioso de outra pessoa.

A pedra
Existe uma leitura sobre os homens que parece escrita na pedra: todo homem quer extrair poder, todo homem diz que ama para ter cuidado, afeto, alguém que organize a vida dele. E estou nesta posição, de quem precisa de cuidado, de afeto, de companhia. Por isso, quero construir uma comunidade: Tomando iniciativa, colocando dinheiro e trabalho, decidindo coisas. Mas qualquer coisa que eu faça pode ser lida como privilégio, ou como performance. Talvez, se eu quero um lugar para os outros, também queira um lugar onde seja necessário. Não posso descartar essa possibilidade. Mas não aceito que toda tentativa de construir algo seja, no fundo, uma tentativa de domínio. Se for assim, ninguém nunca pode começar nada.

Como construir algo com outras pessoas sem que isso vire poder sobre elas? E sem fingir que, para evitar esse poder, basta não fazer nada?

Quem sabe amar
Essa discussão aponta para uma pergunta que ninguém faz direito: O que é o amor? Dizem que homens amam, que homens não amam, que somente mulheres sabem amar. Cada uma tem uma definição de amor. Minha suspeita, é que muitos homens nem têm uma definição. O amor deles é o que receberam da mãe, e daí a expectativa de que uma mulher faça o que a mãe fazia.

Falamos do amor como algo etéreo, o mesmo que fazemos com Deus: um símbolo sem relação com o mundo material. Mas o movimenta: Faz gente casar, mudar de cidade, gastar dinheiro, largar tudo. Então vale olhar o que se faz em nome dele. Quem cozinha? Quem limpa? Quem escuta? Quem está cuidando de quem?

Dizem que homens amam homens, mas desconfio que não existe cuidado de verdade entre amigos. Você vê o tipo de ideia que amigos tem: vai, sobe na árvore, cai, se esborracha todo, e todo mundo ri. Existe cumplicidade, existe lealdade. Mas quando um homem sai do que o grupo aceita, vira piada. Basta ouvir o Bolsonaro chamar alguém de “meio gayzinho” para ver o que acontece com quem escapa da norma: a cumplicidade vale enquanto você confirma as regras do grupo. Talvez por isso muitos homens procurem nas mulheres o cuidado e afeto que não conseguem pedir uns aos outros. E talvez aí esteja o problema: a necessidade de ser cuidado é legítima, mas vira exploração quando alguém passa a ter obrigação de suprir.

Eu, que quero cuidado e companhia, preciso olhar de frente para isso. Sem me absolver e sem me condenar de antemão.

Frases que escutamos do nosso jeito
Um dia vi um vídeo em que uma mulher dizia que todo homem é ressentido com as mulheres. Mostrei para minha parceira, e ela entendeu que os homens são assim porque a sociedade os cria assim. Só que a mulher do vídeo não disse isso. Foi uma elaboração dela. Pode estar certa, mas ela completou a lacuna com aquilo em que já acreditava. A gente escuta a partir de onde foi ferido, protegido, amado ou abandonado.

Nos comentários, vi mulheres ressentidas com os homens, e provavelmente muitas que odeiam. Entendo. A maioria das mulheres teve experiências péssimas, e muitos homens são mesmo escrotos, porque aprendem a ser. Seria absurdo fingir que isso é um problema de interpretação. Mas uma teoria pode acertar o padrão e, ao mesmo tempo, deixar de enxergar as pessoas que estão dentro dele. Meu medo é que o padrão vire sentença.

O corpo e o que eu não sei
Já me perguntei se eu era mesmo um homem, e não uma mulher trans. Levei a pergunta a sério. Cheguei à conclusão de que não, e hoje estou bem com o meu corpo do jeito que ele é. Ou pelo menos estou agora, porque não sei tudo. Identidade, corpo e modificação do corpo são coisas ligadas, mas não são a mesma coisa. Sei que a medicina e a tecnologia abriram possibilidades novas, e não sei se o que sinto é recente ou sempre existiu. Não estudei o suficiente para falar disso, e não pretendo falar pelos outros.

Já ouvi gente dizer que mulheres trans não são mulheres de verdade, inclusive, vindo de mulheres. Não sei se é preconceito, ou ressentimento aos homens, mas me faz pensar em como a gente transforma categorias em muros. Meu ponto aqui não é decidir quem é o quê, mas notar que a mesma lógica da pedra, “homem é assim, mulher é assim”, aparece de todo o lugar.

O que eu quero?
Não tenho respostas. A Casa Muda nasce dentro dessas contradições, não fora delas. Não garanto que vou construir a comunidade que imagino, nem que estarei imune ao poder que questiono. O que posso fazer é criar um espaço onde essas perguntas não precisem ser escondidas. Quem decide? Quem trabalha? Quem pode discordar? Quem cuida de quem cuida? O que acontece quando alguém simplesmente vai embora?

Não quero deixar de estar sozinho a qualquer preço. Quero entender como a gente pode estar junto sem que alguém carregue tudo, sem que o cuidado vire dívida e sem que pertencer signifique obedecer.

No fim do dia, desço a escadaria, passo pela praça, escuto as vozes dos botecos e volto para casa.

Só que agora essa solidão tem uma pergunta a mais. E, enquanto não descubro a resposta, continuo trabalhando.

A Zeladora

Leah Amor