O Oriferrum

Objeto

Mineral inerte. Tinta ritual, commodity colonial, amuleto falso, droga, pó no pulmão. Espelho em branco.

Como todo objeto, revela quem o toca. Usado como extração, inverte. Como tinta de rito, já levou à sincronia.

A história

O Oriferrum é um mineral que se encontra em rochas superficiais de Campos das Minas, no interior do Brasil. Embora ocorra em outros pontos do globo, sua presença costuma se restringir a camadas profundas da crosta, onde a exploração humana é quase impossível. Em sua forma bruta, cristaliza-se em romboedros, prismas ou pseudocubos, estruturas opacas que revelam uma transparência em suas arestas. Sua cor transita entre o verde-musgo e o laranja vibrante, com reflexos internos em tons avermelhados. Hoje, a indústria nacional depende do Oriferrum. Dados governamentais do início do século XXI apontam que o mineral responde por 80% da atividade minerária do país, com 60% da produção concentrada nas montanhas de Campos das Minas.

Antes da Grande Invasão, o cristal era conhecido como Itaobi. Para os povos ancestrais da região, o mineral representava arte e rito. Triturado e diluído em óleos naturais, como o de pequi, transformava-se em tintas essenciais para a pintura corporal em celebrações sagradas. Naquela época, o Itaobi era parte da paisagem, presente em qualquer chão, sob os pés de quem pertencia à terra.

A história mudou no final do século XVII, quando os cabeças-brancas descobriram sua existência. Como o mineral era raro na Europa, eles o elevaram ao status de nobreza, trazendo uma corrida predatória às montanhas. O resultado foi o extermínio de civilizações milenares. Restaram fragmentos de cerâmica e ecos de histórias cuja veracidade jamais saberemos.

Sem dominar as técnicas de extração, os invasores, após limparem o sangue das guerras e erguerem as minas, passaram a trocar o cristal pela posse de corpos. Homens e mulheres com saber especializado eram trazidos à força, chegando a Campos das Minas despidos de sua história e proibidos de tocar o mineral que eles arrancavam dos veios da terra. No século XVIII, mais de mil toneladas de Oriferrum foram extraídas por essas mãos em troca de apenas mais um dia de vida.

O cristal financiou o luxo europeu, pagou dívidas da coroa e ergueu as catedrais que hoje adornam as cidades de Campos das Minas, símbolos de uma ordem social imposta no medo para evitar rebeliões dos escravizados.

Ao final do século XIX, a tecnologia desenvolvida a partir do Oriferrum tornou o sistema escravocrata obsoleto aos olhos dos cabeças-brancas. A exploração continuou nas mãos dos herdeiros dos invasores. A mineração moderna mantém a mesma lógica de extração predatória: a diferença é que a mineração antiga era subterrânea e localizada, a atual é feita através de minas a céu aberto. Essa técnica expõe o mineral, o que faz com que o vento das cavas abertas levante o pó do minério, espalhando-o por toda a região.

Por causa disso, o Oriferrum hoje está em tudo. O pó mineral é respirado com o vento e ingerido através de rios e aquíferos contaminados tanto pelos destroços das minas antigas quanto pela operação das novas jazidas.

O ditado popular de que "em Campos das Minas, todo mundo é um pouco doido" reflete uma realidade biológica: a população local tem o corpo impregnado com resíduos de Oriferrum. O perigo atinge seu ápice em sua forma concentrada: Quando reduzido a pó e fumado, o mineral torna-se uma droga. A euforia provocada pelo Oriferrum cria indivíduos que vagam sem rumo, com o olhar perdido nas sombras do cristal que um dia já foi sagrado.

Dizem que ninguém passa a vida inteira sem carregar partículas de Oriferrum no corpo. O mineral está na poeira das estradas, nos rios, nas paredes das igrejas e no sangue da população. Para alguns, trata-se apenas de uma rocha. Para outros, de uma herança impossível de abandonar. Outros afirmam que formas não contaminantes de manipulação do Oriferrum sobreviveram em práticas diaspóricas...