A Madame
Entidade
Figura do melodrama. Acredita que sensualidade basta, e está presa nessa crença. Quer ser vista. Presença mecânica: roteiro pré-decidido, performance que precisa de testemunha, repetível com qualquer um porque não depende de quem está na frente. Encontro performático: se esgota no instante.
Tem o molejo, e trabalha, mas com o que vê. Vive de aparência: o trabalho invisível não existe para ela. É quem sempre se safa na lábia. Ver, aqui, é estético, não literal.
Foi até a África buscar a ancestralidade negra que veio de lá para cá e está aqui, viva, no Preto Velho. Purificou lá um mineral que nem existia naquela terra e o trouxe de volta como relíquia, para a terra de onde foi arrancado. Tira daqui bruto, refina lá fora, vende de volta: neocolonialismo em forma de amuleto.
Personagem do autoengano. Deseja quem parece ser Cabeça Branca, e ninguém precisa enganá-la: ela mesma se convence.
Mas tem carisma real: aplaude a mediocridade, põe a Diva para cima quando a Zeladora só aponta o que falta. É contra a mineração, seduz Cabeças Brancas e distribui o dinheiro que consegue, sem perceber que reproduz a lógica que critica.
Seduz pela estética. Já acredita na pedrinha, mas sabe que não chegou à Diva: para chegar, é preciso ir além do que se vê.
No fundo, deseja ser entendida, mesmo sem profundidade para ser descoberta: vulnerabilidade que não admite. Pode se apaixonar quando alguém chega perto o bastante para ver o oco, e confunde esse momento de intimidade incomum com amor.
Carta invertida
Acredita estar no estado de Diva sem estar. Entra tanto na própria falsificação que acredita nela, e já nem acredita na Casa Muda.
Desejo
Querer ser entendida, querer ser vista.
No mesmo eixo: A Zeladora.